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Casa de ferreira, espeto de ferro.

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Havíamos nos conhecido em uma comunidade de organizadoras profissionais. Aos poucos fomos nos aproximando e estreitando o contato. Participei de um curso dela sobre organização e ela participou de um meu sobre Feng Shui. Não demorou muito para que me chamasse para um café de “negócios”.

A ideia era contar-me de uma necessidade pessoal e propor uma permuta, onde ela me ajudaria em meus projetos, em troca de algumas sessões de harmonização em sua casa. Já tinha algum tempo que ela trabalhava como personal organizer. Mas embora fosse muito competente ao atender outras pessoas, enfrentava dificuldades de auto-organização.

Confessou que tinha medo que colegas POs (as personal organizers) chegassem em sua casa descartando tudo e pressionando-a a se desfazer das coisas de uma só vez. Viu na Harmonização de ambientes proposta pelo projeto Organice uma chance de fazer isso por etapas, com a reflexão e o carinho tão necessários quando o assunto é apego emocional.

Contou-me sobre o fato de ter uma mãe acumuladora e dela ter herdado o hábito, felizmente em escala bem menor, até por dispor de menos espaço que os pais. Desabafou ainda sobre a insatisfação do companheiro diante da desorganização de sua casa, que também contava com a presença de dois filhos pequenos.

Desafio aceito, lá fomos nós começar o processo. Ao entrar em sua casa, de primeira notei que a mobília da sala era toda escura, uma concentração de tabaco sem qualquer contraste, sofás de couro, madeiras pesadas, tudo extremamente YIN, do ponto de vista do Feng Shui. A primeira medida, portanto, foi clarear o ambiente com peças em marfim, creme e objetos mais coloridos.

No fundo da sala, em uma parede com textura mostarda, havia uma imagem de cristo passando pela crucifixão, era a primeira coisa que a pessoa avistava ao entrar pela porta se olhasse direto para frente em linha reta. Por mais que saibamos da nobreza do significado deste momento para os cristãos, aconselhei que ela fizesse a troca por alguma imagem de Jesus que remetesse a alegria, paz, ou qualquer sentimento positivo, já que nosso subconsciente tudo registra e reproduz.

Na sequência avançamos para o quarto do casal. A cama com cabeceira na janela, as roupas de camas em tons frios de azul e verde e a ausência de “códigos” que remetessem à união do casal me diziam claramente porque as coisas não iam tão bem. Então mudamos a posição da cama, resgatamos lindas fotos do casamento para colocar na parede e trocamos as roupas de cama por tons mais quentes e românticos. No roupeiro ocupado quase que totalmente por ela, também promovemos alguns “rapas”. Muitas foram as doações que ela mesma encaminhou a um centro espírita.

Como cozinha, banheiro e área de serviço estavam relativamente alinhados, avançamos para o quarto das crianças e para o famoso e temido “quarto da bagunça”, um terceiro cômodo que acabara virando depósito de todos. Ali ficavam os brinquedos das crianças, as roupas do marido e uma série de outros itens da casa ou em comum do casal, como documentos, álbuns de fotos e materiais de trabalho. Também sua coleção com mais de 30 bolsas, um de seus maiores apegos.

Com a ajuda de um outro profissional, instalamos algumas prateleiras no quarto dos pequenos e desenhamos um novo layout para o quarto tríplice. Depois de algumas triagens e descartes, a missão de dar continuidade ao projeto ficou só com ela. Até hoje não sei qual foi o resultado final, mas seu feedback foi de que as coisas melhoraram muito, o que inclui seu relacionamento conjugal e a qualidade de vida da família.

Ao vivenciar o desafio desta organizadora, pude refletir também sobre os meus, que incluem conviver em um coletivo familiar. Aos mais organizados é muito fácil manter tudo no lugar quando se mora sozinho, mas quando o assunto é viver em grupo, surgem os primeiros problemas. É preciso diálogo, regras, negociações, novas sistemáticas e muuuita paciência.

Da nossa colega, destaco algumas qualidades muito importantes: a tomada de consciência de sua situação; a humildade de pedir ajuda a uma colega de profissão; a retomada de seu processo terapêutico como forma de auxiliar na questão do apego emocional que, via de regra, tem como pano de fundo alguma história ainda não resolvida.

Ponto para ela e para o Organice. Combatemos o velho ditado: casa de ferreiro não pode ter espeto de pau.

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